Falando português – identidade ou diferença?, por Raquel Lima

Como já foi comentado pelo Igor, desde 2008 o P5 tem se voltado para uma discussão mais crítica sobre os Direitos Humanos e, dentro disso, encontrado na temática do multiculturalismo boas contribuições para superar aquele debate dicotômico entre universalistas e relativistas.

Buscando uma base empírica, no primeiro semestre de 2009 passamos a nos valer do multiculturalismo para analisar algumas das tensões entre o Estado brasileiro e os povos indígenas.  Foi então que uma matéria publicada no Caderno Mais!, da Folha de São Paulo, em 12 de julho de 2009, veio ao encontro de nossos interesses e apontou um objeto mais específico para o qual poderíamos voltar nossa atenção.  O ponto de partida para os textos apresentados no jornal era a notícia de que o Censo que começará a ser realizado no ano que vem incluirá um quesito voltado a identificar o número oficial de línguas indígenas faladas no território nacional.  Assim, imediatamente nos perguntamos: será esse um movimento no sentido de o Brasil se reconhecer como um país plural?

De fato, a pergunta era pertinente, pois o que descobrimos à medida que nos aprofundávamos no tema foi que a identidade nacional foi forjada a partir do mito de que ser brasileiro é falar português. Segundo Gilvan Müller de Oliveira (2009), a construção dessa nação monolíngue passou não só pela imposição do português aos índios, mas também por políticas de perseguição e tortura aos imigrantes que falavam seus idiomas nativos, durante o Estado Novo.

Já convencidos de que a língua é um importante instrumento de poder e de resistência a ele, buscamos entender antropologicamente a região do Alto Rio Negro para recompor a significado de lá, em São Gabriel da Cachoeira (AM), existir o único município brasileiro que reconhece mais de um idioma oficial (3 indígenas e o português).

Foi no trabalho de Cristiane Lasmar (2005) que identificamos o quanto a identidade social na região do Uaupés é definida pela língua, além do fato de a própria experiência familiar ser marcada por um padrão multilíngue. Não foi à toa que uma das bases da dominação dos missionários salesianos na região estava justamente na proibição do uso das línguas nativas.

Portanto, foi considerando as disputas existentes no campo linguístico e a importância de se estimular direitos de reconhecimento – nos termos de Nancy Fraser (2007) –  que o P5 buscou responder à seguinte pergunta: “Como superar o Estado monoglota?”.

São os debates relativos a essa questão e às possibilidades de resposta que Igor Rolemberg , Luísa Luz e eu apresentaremos por meio de um poster no V Encontro Anual da ANDHEP, que começará nesta quinta-feira, em Belém do Pará.

Esperamos voltar dessa viagem – que se tornou viável graças ao auxílio financeiro da USP, por meio do Pró-Eve – com mais questionamentos que nos permitam transformar este trabalho em um artigo acadêmico.

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