Afeganistão: estratégia de saída ou de entrada?, por César Yip

O debate já estava correndo. O relatório do general Stanley McChrystal, Comandante das tropas estadunidenses no Afestanistão, veio para polemizar ainda mais a questão: qual deve ser a estratégia dos Estados Unidos no Afeganistão? Ou, antes que isso: qual o objetivo dos Estados Unidos no Afeganistão?

Por incrível que pareça, após 8 anos (completados essa semana) de intervenção, os Estados Unidos ainda não sabem o que fazer do país asiático. Alguns estrategistas, políticos e comentadores entendem que basta impedir que o território afegão torne-se novamente um santuário e campo de treinamento de terroristas que possam prejudicar interesses estratégicos estadunidenses. Outros entendem que os Estados Unidos deveriam criar um Estado sólido (o máximo possível democrático) que possa atender sua população e exercer autoridade sobre seu território. As consequencias estratégicas das duas concepções são bastante diferentes.

O general Stanley McChrystal defende uma nova concepção da atuação estadunidense. Para ele, o foco das tropas estrangeiras deve ser a população afegã. O general entende que o modelo de ocupação aplicado até aqui, preocupado somente com a segurança das tropas contra a insurgência, gerou um distanciamento da população, e operações militares que geram casualidades civis complicam ainda mais a situação. Basicamente, o general lembra os estadunidenses da importância da “batalha por corações e mentes” da população do país ocupado.

Em seu relatório, McChrystal defende:

Our strategy cannot be focused on seizing terrain or destroying insurgent forces; our objective must be the population. In the struggle to gain the support of the people, every action we take must enable this effort. This population also represents a powerful actor that can and must be leveraged in this complex system. Gaining their support will require a better understanding of the people’s choices and needs. However, progress is hindered by the dual threat of a resilient insurgency and a crisis of confidence in the government and the international coalition. To win their support, we must protect the people from both these threats.

A estratégia de McChrystal parece beneficiar também a abordagem de David Kilcullen. O australiano, especialista em contra-insurgência e que elaborou a estratégia que trouxe certa estabilidade ao Iraque, em seu livro “The Accidental Guerrilla”, ressalta a importância de distinguir entre os guerrilheiros extremistas e aqueles que se aliaram à insurgência simplesmente por oposição à ocupação de seu país e atuação das forças estrangeiras (esses últimos seriam a “guerrilha acidental”).

David Ignatius resume o argumento de Kilcullen:

The right strategy is to remove the ‘accidental’ combatants from the battlefield — by negotiating with them, buying them off, sharing power with them or just ignoring them. At the same time, the United States must ruthlessly pursue its deadly adversaries in al-Qaeda and separate them from the Afghan population. Above all, Obama must avoid creating a backlash in neighboring Pakistan by heavy-handed U.S. military intervention there.

Conjugando-se as duas análises, teríamos que os Estados Unidos devem proteger e auxiliar a população civil, evitando assim a criação de um número ainda maior de guerrilheiros “acidentais”.

Por outro lado, Bruce Riedel, que chegou a assessorar Obama durante a campanha presidencial, critica que:

At no point is there any serious evidence that the top Taliban leadership [in Afghanistan] have been willing to give up bin Laden and turn him over. (…) And that really ought to be the bar on which we judge whether the Taliban is willing to enter into serious negotiations, not a promise that ‘if you leave, we’ll be good boys’, or that ‘we will break with al-Qaeda’.

O argument de Riedel, no entanto, parece ignorar o fato de que a estratégia de separar a guerrilha não consiste em negociação com os principais líderes do grupo, mas sim em encorajar a defecção dos insurgentes (afinal, os grandes líderes do Talibã não são combatentes “acidentais”).

A ideia de que a aproximação com a população pode gerar resultados concretos em termos de segurança é confirmada ainda pela evolução da situação na cidade de Khost (note-se que o autor do texto linkado é Richard Holbrooke, atual enviado especial de Obama para o Afeganistão e Paquistão).

Contra essas evidências e a opinião de McChrystal, muitos outros têm defendido o caminho contrário: a redução da presença no Afeganistão.

Leslie Gelb, presidente emérito do poderoso think-tank Council on Foreign Relations, defende uma estratégia mais restritiva, sem a tentativa de state-building e com redução das tropas:

Trying to eliminate the Taliban and Qaeda threat in Afghanistan is unattainable, while finding a way to live with, contain and deter the Taliban is an achievable goal. After all, we don’t insist on eliminating terrorist threats from Somalia, Yemen and Pakistan. Furthermore, this strategy of containing and deterring is far better suited to American power than the current approach of counterinsurgency and nation-building.

O primeiro-ministro canadense também declarou que “Frankly, we are not going to ever defeat the insurgency”. O colunista canadense Lawrence Martin endorsa essa linha e questiona, nesse contexto, o envio de mais tropas por Obama (no caso do artigo linkado, a primeira leva de 17 mil militares).

O presidente estadunidense ainda não definiu qual será sua nova estratégia. Algumas posições, no entanto, já estão claras. Desde a campanha, Obama defende a opção de negociar com alguns elementos do Taliban. Além disso, a Casa Branca já declarou que não fará nenhuma redução de tropas. Assim, a administração estadunidense parece inclinada a combinar as posições de Kilcullen e McChrystal.

Em algum momento, o Presidente estadunidense terá que tomar de forma mais clara uma posição. A revisão estratégica de McChrystal deve requisitar o aumento de tropas de até 40 mil militares. Qualquer que seja a opinião do Presidente, no entanto, é certo que encontrará severa resistência no Congresso. Os próprios democratas são particularmente resistentes a um envio ainda maior de tropas (logo no começo de seu mandato, o presidente já havia promovido o envio de 17 mil).

Os críticos acertam quando dizem que somente o aumento de tropas não resolverá a situação. Aliás, o envio de mais tropas pode até prejudicar se os novos contingentes se instalarem ignorando a população local, como aconteceu em Karezgay, onde, para instalar novas bases, engenheiros estadunidenses tomaram terras e destruíram o sistema milenar de canais subterrâneos de irrigação local. Exatamente por isso é que o relatório de McChrystal enfatiza a aproximação com a população afegã.

É esse tipo de ocorrência que os estadunidenses devem ter em mente ao avaliar o relatório de McChrystal. Resta saber o que pretende fazer o mais novo prêmio Nobel, e o que ele poderá efetivamente fazer.

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