Um ano de Hillary: saudades de Condi?, por César Yip

Passado um ano do governo Obama, presenciamos algumas mudanças nas quais pudemos acreditar, e acreditamos em algumas mudanças que não vieram.

A ocasião marca também a comemoração de 1 ano de Hillary Clinton a frente do Departamento de Estado. Mas será que há alguma coisa a comemorar?

A escolha de Hillary fez parte de uma estratégia política para conciliar o partido Democrata após prévias disputadas. De certa forma, a nomeação de sua ex-rival foi uma escolha surpreendente. Vale lembrar que um dos trunfos da campanha de Obama no campo de política externa foi ter se oposto à guerra no Iraque, enquanto Hillary esteve entre os apoiadores da campanha.

Mesmo assim, Obama nomeou a terceira mulher entre os quatro últimos ocupantes do posto. Mas a ex-primeira-dama, ex-senadora e ex-pré-candidata à presidência tem um perfil bastante diferente de sua antecessora direta.

Condoleezza Rice, apesar de ter assumido em um momento bastante delicado da política externa americana, chegou ao Departamento de Estado com um currículo invejável na área.

Professora da Universidade de Stanford, Condoleezza já havia trabalhado com Brent Scowcroft quando este ocupou o cargo de National Security Advisor de George H. Bush. A própria Condoleezza ocuparia ainda esse mesmo cargo para o outro Bush, ocasião em que teve grande acesso ao presidente para os ocupantes do cargo. Portanto, ao chegar enfim ao posto de secretária de Estado, em 2005, Condoleezza já tinha alto grau de saber teórico e prático sobre as relações internacionais, além de um relacionamento íntimo com seu Presidente.

Sem os atributos de sua antecessora, Hillary correu atrás para montar uma espécie de dream team das relações exteriores.

Foi buscar nas fileiras de Princeton Anne-Marie Slaughter para ser sua Diretora de Policy Planning, cargo que um dia já foi de George Kennan, um dos arquitetos da Guerra Fria. Dean da Woodrow Wilson School, Slaughter é uma das mais reconhecidas autoras de relações internacionais da atualidade.

Outra escolha de peso para o time foi a de Harold Hongju Koh para Legal Advisor. Dean da Faculdade de Direito da Universidade de Yale, Koh é um dos expoentes da grande onda de transnacionalidade no Direito (ao qual Koh denomina Transnational Legal Process, ou Processo Normativo Transnacional, na tradução de Evorah Lusci Costa Cardoso). No entanto, a escolha de Koh não foi unanimidade, em grande parte exatamente por questionamentos sobre o papel atribuído pelo professor ao Direito Internacional e estrangeiro no direito norte-americano, em outra parte também por campanhas de difamação e interpretações tortas de seu trabalho acadêmico e outras declarações. No entanto, após 3 meses, 40 perguntas formuladas por escrito pelo senador Richard Lugar, uma sabatina de quase 2 horas no Committee on Foreign Relations, três cartas de apoio (assinadas por nomes de peso como José Alvarez, Bruce Ackerman, Richard Falk, Thomas Franck, Thomas Buergenthal, Anthony D’Amato, Michael Reisman e Dinah Shelton) e um grupo de apoio no Facebook, Koh foi finalmente aprovado pelo Senado americano.

Além disso, foram escolhidos nomes de peso para cuidar de regiões-chaves. Foi o caso de Richard Holbrooke como enviado para o Afeganistão e Paquistão, George Mitchell para o Oriente Médio e Stephen Bosworth para a Coréia do Norte.

Assessorada e pronta para a ação, a verdade é que Clinton teve menos influência do que esperado. Pelo menos foi essa avaliação de diversos canais de mídia, como o Der Spiegel (Fighting For Influence in Obama’s White House), NBC (Clinton aims to regain foreign policy clout), o blog The Cable da Foreign Policy (With foreign-policy speech, Clinton plans to raise her profile) e Politico (Hillary Clinton toils in the shadows), quando a Secretária preparou um importante discurso no Council on Foreign Relations.

Além de ofuscada por um Presidente pop-star mundial e por diversos enviados especiais, a Madame Secretary também acumulou algumas controvérsias ao longo de seu ano à frente do Departamento de Estado.

Logo de início, Clinton declarou ser pessimista sobre uma das principais iniciativas de seu governo, o engajamento com o Irã. Em seguida, trocou insultos com a Coréia do Norte em um estilo diplomatico para lá de liberal: “What we’ve seen is this constant demand for attention, and maybe it’s the mother in me or the experience that I’ve had with small children and unruly teenagers and people who are demanding attention.”

Pediu a renúncia de dois governos na África: Zimbábue e Guiné. E elogiou o compromisso de interrupção apenas parcial de construção de assentamentos pelo conservador governo israelense como uma medida sem precedentes.

E, para terminar, no exato dia do aniversário de um ano, a secretária fez um discurso sobre liberdade na Internet que, fora sua inconsistência, só aumentou o nível de tensão entre Estados Unidos e China.

Talvez a boa notícia seja que Clinton não pretende ficar no cargo mais do que quatro anos. Aliás, agora só mais três.

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2 respostas em “Um ano de Hillary: saudades de Condi?, por César Yip

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