Narcotráfico na América do Sul: Histórico e Plano Colômbia III, por Eduardo Detofol e Paulina Cho

Resultados do Plano Colômbia e Relatório da ONU

Após a apresentação de histórico da relação Brasil-Colômbia, no contexto do estabelecimento do Plano Colômbia, e da análise dos efeitos de sua implementação, passaremos a considerações sobre os resultados do Plano.

De acordo com o Relatório Mundial sobre Drogas da Organização das Nações Unidas, divulgado em 2009, o cultivo de folha de coca e a produção de cocaína caíram, respectivamente, 18% e 28% na Colômbia entre de 2007 a 2008. Trata-se de um dos resultados obtidos pelo Plano Colômbia, por meio do qual os Estados Unidos e a Colômbia investiram 2,6 bilhões de dólares anuais desde o ano 2000.

Contudo, Daniel Mejía, pesquisador, doutor em economia pela Universidade de Brown e um dos autores da pesquisa – junto com Pascual Restrepo – explica que o Plano Colômbia tem sido pouco eficiente em diminuir o fluxo de cocaína para os EUA, mas tem sido exitoso em melhorar as condições de segurança do país andino. Sobre o relatório da ONU acerca do Plano Colômbia, Mejía pontua que “o resultado pode ser classificado como positivo para a Colômbia. No entanto, falta verificar se os padrões de demanda e preços concordam com o estimado pelo UNODC e com as estimativas da ONDCP (gabinete da Casa Branca para o controle de drogas) (…) A avaliação desses resultados não deve estar baseada unicamente em se os cultivos baixaram temporariamente ou se a produção caiu. A verdadeira avaliação deve indagar sobre os custos para a Colômbia de avanços significativos na guerra contra a produção e o tráfico de cocaína.”

Acerca do método de avaliação do Plano ele explica: “Construímos um modelo econômico da guerra contra as drogas com a teoria dos jogos, uma ferramenta da microeconomia que permite modelar interações estratégicas. É um modelo matemático que envolve todos os atores do conflito. O mais interessante é que utilizamos dados disponíveis dos resultados da guerra contra as drogas na Colômbia para aplicar o modelo aos dados, e isso nos permitiu construir diferentes medidas de eficiência, custos e efetividade”.

Questionado sobre a efetividade do Plano, Daniel Mejía explica que “Quando foi criado, em 2000, o Plano Colômbia tinha dois objetivos: reduzir o cultivo e a produção de cocaína pela metade até 2006 e melhorar as condições de segurança na Colômbia. O segundo objetivo foi alcançado. E, mesmo que tenham reduzido à metade os cultivos de coca (hoje são 81 mil hectares) em comparação com 1999 e 2000 (eram 160 mil), a produção de cocaína se manteve estável. Ou seja, a mesma quantidade de cocaína está sendo produzida na metade do espaço”. Esse fenômeno, por sua vez, se deve ao fato de ter havido “um incremento da produtividade por hectare graças a adaptações feitas pelos produtores de coca: tornaram cada hectare mais produtivo, semearam plantas mais resistentes e com mais alcalóide, semearam em menos espaço, têm canteiros prontos. Em suma: a produção de cocaína não diminuiu, os preços não aumentaram, a demanda é estável.”

Segundo o estudioso ainda, o erro esteve no fato de que “a guerra contra a produção através do Plano Colômbia teve um enfoque no ataque a cultivos ilícitos – ou seja, o elo mais frágil da cadeia. Deveriam ter investido muito mais nas apreensões de cocaína, na procura de laboratórios de produção e na interdição de insumos químicos sem os quais não se produz a cocaína, e que chegam através das fronteiras do sul do país, principalmente do Brasil”.

A respeito do aumento do número de apreensões de cocaína e seu efeito esperado de diminuição da quantidade da droga nos Estados Unidos, Mejía explica que “o que se apreende na Colômbia está entre 15 e 20% de toda a produção de cocaína, que é de aproximadamente 600 toneladas. São feitas grandes apreensões, mas o que são 100 quilos comparados com o total? Isso não tem um impacto maior, e se poderia fazer muito mais ênfase em políticas de interdição”. E visando à melhora das políticas de interdição, acrescenta que o caminho para tal é o mesmo “como se enfrentou a guerra contra o seqüestro: investindo em inteligência, interceptações, infiltração de redes de narcotraficantes, apreensão de precursores químicos etc. Quando um avião erradica um hectare de coca, tira do produtor 400 dólares do bolso. Todavia, se a polícia pega um quilo de cocaína no Caribe, tira 15 mil dólares do traficante e, se o faz na fronteira com os EUA, o mesmo quilo já pode valer 35 mil dólares. Há muito espaço sobre o qual atuar, mas o golpe é muito mais duro quando se ataca o tráfico do que quando se o faz com a produção”.

Por fim, explica que, apesar da intensificação da guerra contra as drogas, o preço da cocaína se manteve estável “porque a demanda de cocaína é estável também. Estamos falando de um produto que gera dependência e, quando há dependência, as pessoas reagem muito pouco às mudanças de preço. Caso suba o preço do meu vício, simplesmente busco a maneira de conseguir o dinheiro. Os preços da cocaína vistos a longo prazo têm sofrido uma queda estrepitosa, especialmente nos EUA. Na Europa, especialmente na Espanha e na Irlanda do Norte, têm aumentado porque a demanda tem crescido”.

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NOTA:

* Extraído de: http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1017607&tit=Crack-avanca-na-America-do-Sul

FONTES UTILIZADAS:

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2 respostas em “Narcotráfico na América do Sul: Histórico e Plano Colômbia III, por Eduardo Detofol e Paulina Cho

  1. Bom, elogiei o primeiro. Foi uma apresentação, o que abriu espaço para menores colocações. Sem opiniões, sem debate.

    Mas agora sou obrigado agora a deixar minha crítica: faltam resalvas quanto as reais conquistas desse plano proibicionista, a violência que gerou, bem como suas hipocrisias. Podeira ter a voz de alguém que não defenda essa visão norte americana e proibitiva.

    Me entristece pensadores dos direitos e das relações internacionais se restringirem a essa visão proibicionista. A meu ver é contra ela que o país deve se opor nos próximos anos . Devemos seguir caminhos como de Portugal, Espanha, República Checa, Holanda que buscam novas formas de regulamentação.

    Acho que não cabem maiores discussões aqui. Independente da conclusão do artigo não ter caminhado no sentido que gostaria, parabens por colocar o tema em debate.

    Abraços.

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