[Review] Diplomacia Suja, por César Yip

Diplomacia Suja – As conturbadas aventuras de um embaixador beberrão, mulherengo e caçador de ditadores que, sem um pingo de arrependimento, se viu encalacrado na linha de frente da Guerra contra o Terror

Craig Murray

Companhia das Letras, 2010

A Companhia das Letras lança este semestre o livro Diplomacia Suja, do ex-diplomata britânico Craig Murray.

A obra conta a história de Murray durante seu período como embaixador em Tashkent, no Uzbequistão, entre 2002 e 2004.

O tema principal do livro é sua denúncia dos abusos de Direitos Humanos no país centro-asiático, em especial a repressão e tortura de grupos políticos e religiosos, e a forma como os governos dos Estados Unidos e Reino Unido fecharam os olhos a isso em razão da aliança com o presidente Islam Karimov na Guerra ao Terror.

Uma primeira observação é o possível atraso com que o livro chega ao Brasil. A obra foi originalmente lançada no Reino Unido em 2006 sob o título Murder em Samarkand. Em 2007, a versão americana, mais curta e menos censurada (segundo o próprio autor), foi lançada com o nome de Dirty Diplomacy. É essa a versão que chega ao Brasil, somente agora em 2010. Se é bem verdade que a Guerra ao Terror continua, e que Karimov continua dominando o Uzbequistão, os alvos centrais do livro são os já ultrapassados governos Bush e Blair. Ainda assim, a edição da Companhia das Letras é a primeira em língua não inglesa no mundo.

A história gira basicamente em torno de sua denúncia explícita, enquanto embaixador, de casos de repressão política e tortura, o que lhe trouxe notoriedade, mas também causou constrangimentos. O ápice dessa trajetória se dá quando o embaixador descobre que relatórios das inteligências britânica (MI-6) e americana (CIA) tinham por base informações repassadas pelo governo uzbeque, obtidas através de tortura, inclusive em casos individualmente acompanhados por Murray. O embaixador então apresentou suas preocupações ao governo e serviço diplomático, pois tais informações não só violariam o Direito Internacional (ao ser conivente e incentivar a tortura), mas também seriam pouco confiáveis.

Em razão de sua postura combativa, e sob o pretexto de problemas gerenciais e de comportamento (o autor não esconde suas noitadas no Uzbequistão), Murray foi removido da embaixada, e em seguida concluiu acordo para se retirar do serviço diplomático. Desde então, chegou a disputar uma cadeira no Parlamento britânico como candidato independente, e até muito recentemente era reitor da Universidade de Dundee, uma das melhores da Escócia.

Um dos elementos mais interessantes do livro é um debate que também tem sido travado no Brasil, com certo destaque no período eleitoral. Trata-se da opção entre denunciar abertamente situações de violação a direitos humanos, ou evitar o confronto para buscar formas supostamente mais construtivas de atuação. Essa tensão fica evidente no relato de Murray sobre a visita de Theo van Boven, relator especial da ONU sobre tortura. O relatório, além de concluir que a tortura é uma prática sistemática no país, contém 38 páginas de relatos individuais de indivíduos torturados por forças do governo. Sobre o documento, Murray aponta:

O governo Uzbeque ficou furioso, e os americanos, muito constrangidos. John Herbst [embaixador dos Estados Unidos] argumentou que era um erro usar termos tão fortes num relatório, porque os uzbeques passariam a desconfiar de tais visitas. Sugeri que visitas que não dizem nada não servem para nada. (p. 193).

No mesmo sentido, Murray também critica uma mudança ocorrida na forma de atuação da prestigiosa ONG Freedom House, por pressão de diretores alinhados à direita do Partido Republicano norte-americano, com o objetivo de dar “total apoio aos Estados Unidos e às forças de coalizão na Guerra contra o Terror”:

Jennifer [Jennifer Windsor, diretora da Freedom House] disse que eles iam parar de fazer “advocacia”; ou seja, não dariam mais declarações públicas sobre direitos humanos no Uzbequistão, nem publicidade a casos individuais de abuso. (…) A principal atividade, de agora em diante, seria trabalhar com as autoridades uzbeques, ensinando-lhes o respeito aos direitos humanos, em vez de ficar do lado de fora, berrando contra elas. (p. 322)

Com isso, a intenção de Murray é mostrar que a adoção desses comportamentos “construtivos” está relacionada a razões de conveniência política, não de estratégia de atuação. No caso, o interesse por trás da “discrição” em relação à ex-república soviética seria garantir a aliança na Guerra contra o Terror e a estabilidade da região situada próxima a importantes reservas de petróleo e gás.

De qualquer forma, o livro está longe de ser somente um relato cansativo de casos de tortura e assassinato, ou então de mera denúncia da posição do governo britânico. Murray conta também sua história pessoal, os conflitos entre a equipe da embaixada, e também sua vida amorosa, narrando inclusive a forma como seu casamento terminou em razão do envolvimento com uma dançarina e stripper local, sua atual esposa. Para tanto, apresenta uma boa dose de humor e ironia, como a afirmação de que “é uma verdade universalmente reconhecida que mulher nenhuma resiste a um flerte com um homem de kilt.” (p. 286)

Fontes adicionais:

Site e blog do autor

Documentos adicionais relativos ao livro

What drives support for this torturer (16.05.2005), artigo de Murray no The Guardian

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2 respostas em “[Review] Diplomacia Suja, por César Yip

  1. Gostei muito do livro!
    No começo fiquei meio dividido entre se o Craig era bom ou só um bêbado que queria causar no governo britânico, mas pelo decorrer das páginas vi que ele na verdade tinha como principal objetivo salvar aquele povo ou qualquer um que necessitava ser livre.
    Recomendo a leitura!

  2. Pingback: Links da semana « Blog da Companhia das Letras

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