Observatório da Política Externa do Brasil: Informe nº. 67

Observatório da Política Externa do Brasil (NEI/FDUSP)

Sumário de temas da agenda de política externa brasileira (10.10.2012 – 16.10.2012):

Comércio Internacional, OMC e sistema financeiro internacional
Encontro FMI, Grécia e Troica, Crise na Zona do Euro, EUA, Brasil

Paz e Segurança Internacional
Visita ao Oriente Médio, Israel, Palestina, Reconhecimento pela AG-ONU


Comércio Internacional, OMC e sistema financeiro internacional
Por Fabiana Santos Schalch e Rafael Pereira Fernandes

A semana foi marcada pelo encontro anual do FMI, realizado em Tóquio entre os dias 12 e 14 de outubro, e pelo pessimismo em relação à conjuntura econômica internacional de 2013. A reunião que já foi utilizada para negociar e consolidar as ações coletivas de combate à crise teve como destaque, neste ano, as acusações entre os países e acordos inconclusivos. O desgaste é natural diante da ineficiência do combate à recessão global que já caminha para o seu 5º ano – sem perspectivas de melhora – de acordo com o estudo do Panorama Econômico Mundial (órgão do FMI) que rebaixou a projeção para a expansão econômica global em 2013 para a casa dos 3,6%.

Dentre os principais debates ganhou destaque o que diz respeito à sustentabilidade da dívida grega. O debate ocorre em um momento crucial para o país europeu, em virtude das negociações em andamento com a Troica. Nesses debates o FMI tem adotado uma postura mais flexível, advogando a necessidade de se conceder mais tempo para que a Grécia possa atingir as metas de controle de seu déficit público. Para a União Europeia, encabeçada principalmente pela Alemanha, o problema grego será solucionado no longo prazo, sendo necessário que o país cumpra rigidamente as medidas de austeridade fiscal. O contexto grego e as projeções feitas pelos consultores parecem exigir uma solução rápida para o impasse, haja vista que indicadores demonstram que as projeções feitas em março deste ano para o endividamento público grego não serão atingidas pelo país se nada for feito. Nas negociações que aprovaram em março, o pacote de ajuda econômica ao país, afirmou-se que até 2020 o endividamento grego chegaria à 120% do PIB. Porém, na situação atual o FMI estima que em 2020 o endividamento esteja na casa dos 150% do PIB, projetando ainda que esta variável irá aumentar de 170,7% em 2012 para 181,8% em 2013. Seguindo a tônica do encontro deste ano, o impasse não foi resolvido.

Na mesma reunião, a Europa anunciou que irá ceder assentos da diretoria do FMI para países emergentes. Holanda e Bélgica irão fundir sua cadeira, permitindo que Turquia, Hungria, República Tcheca e Áustria dividam o assento que irá ficar vago. Apesar da mudança, muitas críticas ainda são feitas à estrutura da direção do FMI. A instituição ainda é dominada pela Europa e pelos EUA, sendo que o projeto de mudanças nesta estrutura aprovado em 2010 ainda não foi totalmente implementado. Com este, os países emergentes terão maior relevância nas decisões do Fundo, com destaque para a China, que com as reformas deverá assumir papel de destaque, passando a ser a 3ª força do Fundo.

As já referidas negociações entre a Grécia e a Troica, iniciadas em setembro, parecem estar chegando a um fim. Em declaração nesta semana (13/10), o ministro das finanças grego, Yannis Stournaras, afirmou que o acordo entre as duas partes a respeito do plano de austeridade a ser adotado pelo país nos próximos 2 anos deve sair na reunião do próximo dia 18/10. As exigências de mais cortes nos gastos públicos e da aceleração das reformas estruturais acordadas passaram a ser um pré-requisito para que o governo grego receba a última parcela do pacote de ajuda econômica de 176 bilhões de euros aprovado no início deste ano. Diante da possibilidade de uma total falta de caixa em novembro, caso a parcela não seja depositada, os gregos possivelmente se comprometerão mais facilmente a votar no parlamento as questões a respeito de novos cortes nos salários dos servidores públicos, nas pensões e nos benefícios pagos pelo governo. Além disso, irão se comprometer também a aumentar a idade de aposentadoria no país, que passará a ser de 67 anos. Por fim, também irão executar as 89 “ações prioritárias” prometidas pelo governo, dando prioridade ao aumento das tarifas de energia para centenas de organizações estatais. Segundo o ministro Stournaras, essas questões serão votadas logo após a reunião da União Europeia.

A Espanha continua a ser o país que mais tem preocupado a zona do euro. Depois da crise de seu sistema bancário e da demonstração de um endividamento elevadíssimo de suas regiões autônomas, a bola da vez é o pedido de um novo pacote de ajuda econômica, que se torna cada vez mais concreto. O que no início eram apenas boatos negados veementemente pelo primeiro ministro Mariano Rajoy, hoje já começam a apresentar contornos mais reais. O governo espanhol já admite pedir nova ajuda, e está apenas aguardando um entendimento mais claro das contrapartidas que lhe serão exigidas. Segundo autoridades da Zona do Euro, muito provavelmente o novo pacote sairá em novembro, ao mesmo tempo em que serão aprovadas a revisão das condições dos empréstimos para a Grécia e um pacote de ajuda econômica para o Chipre.

Enquanto isso nos Estados Unidos, ganha força o debate a respeito do chamado “abismo fiscal” que pode atirar o país novamente em uma recessão no futuro próximo. O que tem assustado os economistas é o fato de que em 1º de janeiro de 2013 expira uma série de cortes tributários feitos ainda no governo de George W. Bush e também perderão vigência os cortes temporários de impostos sobre a folha de pagamento, feitos em 2011. Com isso, os americanos terão que lidar com um aumento de impostos que chegará à US$ 400 bilhões de dólares no próximo ano. A média calculada pela CBO é a de que cerca de 90% dos americanos terão que gastar US$ 3.500 a mais por ano, só com impostos. Para assustar ainda mais os mercados, os consumidores americanos parecem não ter percebido o abismo que os espera; segundo estudo divulgado nesta sexta feira (12/10) pela Universidade de Michigan, a confiança do consumidor nos mercados cresceu, atingindo seu nível mais alto desde antes de 2008. A conjuntura é ainda mais desalentadora se analisamos esse dado em conjunto com a pesquisa realizada pela RBC Capital Markets que demonstrou que apenas 14% dos americanos mudaram seus hábitos de consumo em virtude do abismo fiscal que se aproxima.

Além disso, os americanos travaram um debate com o Brasil na reunião anual do FMI que se refere à guerra fiscal que os dois países tem protagonizado nos últimos meses. Ben Bernake, presidente do Fed, afirmou que a relação entre a política monetária dos países desenvolvidos e o fluxo de suas moedas para os países emergentes é muito mais fraca do que se tem alegado. Por outro lado, Guido Mantega, respondeu acusando os países desenvolvidos de se valerem da política cambial para escaparem da crise à custa dos emergentes.

Por fim, a China apresentou uma das poucas notícias positivas para a economia global nesta semana. Em um período de transição política, o governo chinês divulgou no sábado (13/10) dados referentes às exportações do país que apresentaram uma alta que surpreendeu a muitos. As exportações cresceram em 9,9%, superando em muito a previsão do mercado, que trabalhava com um crescimento de apenas 5,5%. Este crescimento foi encarado por muitos analistas como um sinal de estabilização da segunda maior economia do mundo, que vinha apresentando sinais de queda desde o primeiro trimestre de 2011. Mesmo assim, segundo o FMI reduziu sua estimativa para o crescimento do PIB chinês para 7,8%, o mais fraco desde 1999.

A notícia pode aumentar as esperanças brasileiras de voltar a crescer em 2013 na casa dos 4%. Segundo análises de grandes empresas de consultoria divulgadas pelo Valor Econômico nesta segunda feira, o crescimento brasileiro irá depender muito do cenário internacional. Uma piora na economia global afetará diretamente as exportações brasileiras e o investimento em nossa capacidade produtiva o que tornará nossa indústria ainda menos competitiva. Essa perspectiva levou os analistas do Morgan Stanley Brasil cravar o crescimento de nosso PIB em 2,8% em 2013. Por outro lado, empresas de consultoria como o Itaú, a LCA e o Bradesco confiam em um crescimento igual ou superior a 4%. Contribuiriam para essa pujança as desonerações da folha de pagamento feitas pelo governo neste ano, as reduções tributárias em diversos setores da economia, a autorização para o aumento do endividamento público dos estados e a redução dos juros da economia, medidas que começariam a fazer efeito no ano que vem.

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Algumas notícias:


Paz e Segurança Internacional
Por Jefferson Nascimento

A semana foi marcada pela visita do ministro Antonio Patriota a Israel e Palestina.

No dia 14/10, o ministro brasileiro visitou Israel, mantendo agenda com o chanceler Avigdor Lieberman, com o presidente Shimon Peres e com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Houve encontros, ainda, com autoridades do ministérios que cuidam de Energia Atômica e de Ciência e Tecnologia. Durante a reunião com o presidente Shimon Peres, Patriota reiterou a disposição brasileira de cooperar com o processo de paz entre palestinos e israelenses, lembrando que o Brasil é um país sem inimigo, tendo, assim, condições de colaborar com as negociações para o final do conflito. “Talvez estejamos em uma posição única para ouvir todos os lados e participarmos nos esforços de paz”, disse o ministro.

No dia 15/10, Patriota se encontrou com o chanceler palestino Riad Malki, o presidente Mahmoud Abbas e o primeiro-ministro Salam Fayyad, além do negociador-chefe da Organização para Libertação da Palestina, Saeb Erekat. Conforme ressaltado pela diplomacia brasileira, tratou-se da primeira visita de um chanceler do Brasil desde o reconhecimento, pelo país, da Palestina como Estado, em dezembro de 2010. A visita à Palestina ocorre dias antes da apresentação do pleito, pela delegação palestina, da elevação do status à Assembléia Geral da ONU. Segundo Saeb Erekat, a visita de Patriota é bastante relevante, ainda mais realizada semanas antes do novo apelo palestino à ONU, a ocorrer no próximo dia 15 de novembro.

Algumas notícias:


Dúvidas sobre o Observatório da Política Externa do Brasil do NEI/FDUSP? Contate-nos em observatorio@nei-arcadas.org.


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