Observatório da Política Externa do Brasil: Informe nº. 69

Observatório da Política Externa do Brasil (NEI/FDUSP)

Sumário de temas da agenda de política externa brasileira (24.10.2012 – 30.10.2012):

Direitos Humanos
Líbano, Ataques terroristas, Síria, Extensão da guerra

Comércio Internacional, OMC e sistema financeiro internacional
Isenção do IPI, EUA, China, Medidas européias de austeridade, Olimpíadas


Direitos Humanos
Por Esther Lopes Cohim Moreira e Marília Camargo Miyashiro

Em matéria divulgada em 19/10 na Carta Capital há o alerta para a influência da guerra civil síria no Líbano, com especialistas indicando que um dos planos do governo da Síria para tentar se manter no poder seria desestabilizar o Líbano. O início da instabilidade libanesa se por meio do atentado em Ashrafieh, um bairro cristão de Beirute, “ataque terrorista” que fez com que os libaneses lembrassem da terrível guerra civil que afetou o país por 15 anos (1975-1990).

A morte de Hassan, chefe de inteligência libanês, levanta a questão sobre a capacidade de o país conseguir evitar a explosão de uma nova guerra civil. Não há, por enquanto, nenhuma prova de que Assad esteja por trás do ataque. Seu governo, inclusive, condenou o “atentado terrorista”. Há, porém, indicações fortes a respeito da possibilidade de o governo sírio estar envolvido. O cisma xiita-sunita tem ficado cada vez mais forte no Líbano. O Hezbollah (xiita) está ajudando as forças de Assad na Síria, enquanto libaneses sunitas são aliados dos opositores de Assad, também em sua maioria sunitas. Imediatamente após o atentados, grupos sunitas realizaram protestos em Beirute e também em Trípoli, cidade no norte do Líbano. A violência entre os grupos sectários, entretanto, vai depender muito da postura dos líderes políticos libaneses. É nesta esfera em que a guerra civil pode tomar corpo.

“A reação desses políticos é exatamente o que Assad (esteja ele por trás ou não dos ataques) deseja, pois é o caminho para a instabilidade no Líbano. Para evitar o acirramento dos ânimos, o campo anti-Síria precisará ponderar suas acusações. Ao mesmo tempo, o campo pró-Síria precisaria ir a público condenar os atentados e exigir a investigação dos crimes”. Essa seria a solução ideal para o Líbano e os libaneses, mas talvez seja pedir demais para políticos que, independentemente de religião ou posição no espectro político, fazem alianças baseadas em sua relação com a Síria.


Comércio Internacional, OMC e sistema financeiro internacional
Por Fabiana Santos Schalch e Rafael Pereira Fernandes

No Brasil, os principais eventos da semana foram o feedback positivo do setor industrial do país no mês de outubro e o anúncio da prorrogação dos benefícios concedidos ao setor automotivo até o fim de 2012. Os industriários relataram neste fim de mês que, apesar de não serem números expressivos, as vendas melhoraram em comparação a setembro, o que pode indicar uma retomada da atividade industrial no país, em queda livre desde o início do ano. O licenciamento de veículos leves, por exemplo, teve alta de 2% se compararmos com o mês passado; já o licenciamento de ônibus e caminhões teve alta de 11,6%.  Esse crescimento pode ser encarado como um resultado de curto prazo das políticas de facilitação do crédito e de desoneração da folha de pagamento implementadas pelo governo neste segundo semestre. Apesar dessa leve recuperação, o ano para a indústria brasileira tem sido “sofrível” como definiu o presidente do Instituto Nacional dos distribuidores de Aço, Carlos Loureiro em entrevista ao Valor Econômico desta terça feira (23/08).

O segundo grande evento da semana para a conjuntura econômica do país foi o anuncio da prorrogação da isenção do IPI para o setor automotivo feito pela presidente Dilma Rousseff durante visita ao Salão do Automóvel que ocorreu em São Paulo nesta semana. Seguindo a estratégia definida desde 2008, a redução/isenção do IPI tem sido uma ferramenta útil para o governo manter os investimentos e geração de empregos no setor. A presidente durante o discurso que anunciou a prorrogação fez menção à importância do Brasil se consolidar como um país produtor de veículos, segundo ela, não basta o país ser um grande produtor de commodities, para ser grande é necessário também ser capaz de produzir produtos de alto valor agregado. A presidente aproveitou para fazer menção à importância do novo regime automotivo brasileiro, o Inovar auto, em que as empresas são obrigadas a utilizar produtos nacionais em suas linhas de montagem que aqui estiverem instaladas.

Ainda falando de Brasil, a semana também apresentou uma mudança histórica no portfólio de importações do país. A China ultrapassou os EUA, assumindo a posição de principal exportador para o Brasil. Segundo dados do Valor Econômico desta terça feira (23/10), os asiáticos são responsáveis por uma fatia de 15,2% do nosso mercado de importações, enquanto os EUA possuem apenas 14,4%. Os principais motivos para essa alteração em nosso comércio exterior são o fraco desempenho econômico dos EUA nos últimos 4 anos, que fez suas exportações para o Brasil caírem 7% desde 2002, e as alterações estruturais que a China promoveu em sua produção industrial. Em 10 anos, a China passou de um exportador de Hulha e Coque, duas espécies de carvão mineral, para invadir mercados de eletroeletrônicos e de seus componentes além de materiais para transportes, mercados antes dominados pelos EUA. Essa mudança qualitativa da produção industrial chinesa foi notada pelo Brasil que intensificou suas relações comerciais com os asiáticos. Segundo José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) “as importações da China não são mais quinquilharias, ou de produtos têxteis e de calçados. Hoje importamos bens de capital chinês.”.

Apesar dessa notícia positiva em sua pauta de exportações, a China tem passado por dificuldades com a sustentabilidade de seu modelo econômico. De acordo com artigo publicado esta semana no The Wall Street Journal, em um momento de transição política, a China começa a perceber que talvez seja necessário também realizar uma transição de modelo econômico. Nos moldes atuais, o país tem consagrado uma sociedade extremamente desigual (os 10% mais ricos controlam 84,6% das riquezas das famílias), o que vem prejudicando a retomada do crescimento econômico no país. Neste ano, estima-se que o PIB chinês crescerá a 7,4%, o mais baixo desde 2009. E segundo um dos conselheiros do Banco Central do país, Song Guoqing, as previsões para 2013 são de um crescimento ainda mais lento O que alguns economistas sugerem é que o país deverá se preocupar mais com o consumo das famílias, deixando de lado por um tempo o modelo econômico centrado nas empresas e exportações. Para criar uma nova economia, mais ligada ao consumo interno, o combate às desigualdades sociais se torna ainda mais necessário. O problema é que isso envolve um embate com as elites do país, que atualmente se beneficiam do regime de subjugação dos mais pobres a um regime de trabalho com baixíssimos salários e esparsos direitos trabalhistas e sociais, além de controlarem uma rentável rede de corrupção, fator endêmico em um país onde a economia e a burocracia estatal se relacionam intensamente. Apesar do crescimento dos debates entre os próprios chineses, reconhecendo a importância do tema para a conjuntura econômica do país, parece que os governantes atuais e os que provavelmente os sucederão não terão a disposição política para intensificar as reformas neste sentido. Segundo Fred Hu, presidente da Primavera Capital, fundo de private equity que atua em Pequim, “para completar uma sucessão tranquila, Li e Xi [sucessores de Hu Jintao e de seu vice no governo chinês] terão que ficar de cabeça baixa”.

Na Europa a semana foi marcada por novos protestos, agora na Itália, contra os programas de austeridade econômica que vem sendo utilizados como uma das principais ferramentas de combate à crise. Centenas de jovens se reuniram neste último sábado (27/10) em Milão convocados pelos partidos de esquerda e sindicatos para incorporarem o movimento “Não a Monti”, em uma clara referência ao primeiro ministro do país que pretende aplicar as reformas de austeridade em breve. Apesar de não ter figurado muito durante os últimos meses nos noticiários econômicos, a Itália é um dos países que se encontram com um elevado endividamento público e um forte desequilíbrio em sua contabilidade, sendo motivo de preocupação para a União Europeia.

Na Grécia, tivemos uma importante declaração do Ministro das Finanças do país, Yannis Stournaras, que afirmou que importantes progressos foram feitos para a implementação do atrasado programa de reformas grego. Com isso, o ministro dá a entender que irá atender aos pedidos da Troica, impostos como condição para o recebimento da última parcela do programa de ajuda financeira que totaliza 173 bilhões de euros. O governo grego se comprometeu a implementar as 89 das ações prioritárias assumidas perante a trinca de credores (FMI, BCE e Comissão Europeia), além de ter se comprometido a adotar um programa de corte de gastos que totalizarão 13,5 bilhões de euros nos próximos 2 anos. Ainda nesta semana, deverá ser votada a reforma trabalhista, tema também exigido pelos credores, no parlamento grego. Porém, sua aprovação promete fortes emoções. O menor partido da coalizão governista, a Esquerda Democrática, prometeu não votar favoravelmente às reformas trabalhistas, colocando em risco a sua aprovação.

Na Espanha, as estatísticas de desemprego bateram recorde histórico ao ultrapassar a casa dos 25%. Atualmente encontra-se desempregada 25,02% da população espanhola. Apesar da terceira alta seguida, o desemprego foi reduzido em três setores importantes da economia: na indústria, na construção civil e no setor de serviços.

Por fim, encerro o informe com uma notícia que pode ser um alerta para o Brasil. O Reino Unido anunciou nesta última quinta feira (25/10) resultados que surpreenderam as expectativas do mercado. O PIB britânico conseguiu crescer 1% no terceiro trimestre de 2012 (o mercado esperava um crescimento de 0,6% apenas) graças à realização dos jogos olímpicos no país. Segundo analistas, o mega evento foi responsável por impulsionar a economia do país neste meio de ano. Porém, isto só foi possível em decorrência dos esforços de redução dos gastos na organização do evento. Nesta semana o comitê olímpico local anunciou que os custos das Olimpíadas ficaram abaixo do valor orçado. Disso, podemos pensar Rio 2016 e a Copa de 2014 como possibilidades de aquecimento econômico, mas para tanto um controle nos gastos se faz necessário e urgente.

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Algumas notícias:


Dúvidas sobre o Observatório da Política Externa do Brasil do NEI/FDUSP? Contate-nos em observatorio@nei-arcadas.org.


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